Caro estranho,
Não sei de onde tirei a idéia de escrever um bilhete agora, mas se estiver lendo isso, continue lendo até o final, um finado agradece. Eu falo desse jeito pois não há como sair daqui vivo, não desse lugar, não dessa situação. Se estiver com dúvidas de como toda essa cidade veio abaixo, espero que essas palavras ajudem a esclarecer o que houve.
Se eu bem me lembro, deviam ser 15 horas quando tudo começou a tremer. Foi um terremoto fortíssimo, eu nunca tinha visto nem presenciado nada como aquilo, era apavorante. As estantes começaram a cair, as paredes começaram a rachar, todos começaram a gritar, e eu fiquei sem reação. Não sabia o que fazer, não sabia se eu corria, gritava, chorava, ajudava as pessoas, eu apenas travei. Pode parecer covardia, mas eu simplesmente não tive reação. O caos acontecia ao meu redor até que uma das paredes da sala em que eu estava caiu em cima de mim, me deixando nesse espaço sem luz de 1 metro cúbico, eu presumo. Eu mal fico sentado aqui, não sei nem como estou conseguindo escrever. O irônico disso tudo é que eu sofro de claustrofobia, então você deve imaginar meu estado nos primeiros 20 minutos. Depois que a parede caiu, eu não soube de mais nada "lá fora". Me pergunto se meus colegas de trabalho conseguiram se salvar.
Agora estou aqui, com meu isqueiro aceso para iluminar esse espacinho, tentando controlar meus tremores e meu medo, escrevendo esse bilhete e fumando meu último cigarro, o que é bem imbecil da minha parte, já que, a cada tragada, eu fico com menos ar. E minha mãe sempre dizia que o cigarro me mataria um dia, mal sabia ela que tinha razão. Falando nela, eu peço encarecidamente que você, caro desconhecido, diga a ela que eu peço perdão por ter sido um péssimo filho na adolescência. Perdão pela teimosia, rebeldia, e todas as brigas que tivemos. Diga à minha mulher e filho, e à minha mãe, que os amo mais que minha própria vida, e que eu peço desculpas por não poder fazer mais nada por eles. Diga à Rebeca, minha mulher, que ela foi, de longe, o melhor presente que já me foi dado. A gente não escolhe o dia em que vai morrer, por isso queria deixar esses sentimentos bem claros. O endereço das duas serão escritos na parte de trás do papel, assim você pode encontrá-las mais facilmente.
Agora, se você estiver perguntando a si mesmo se estou com medo de morrer, saiba que nem eu sei a resposta. Nunca tive medo da morte durante minha vida, mas quando você se depara com ela, a história é outra. É uma curiosidade mórbida saber o que vai acontecer quando meu coração parar de bater, se eu vou ver alguma luz, se eu vou continuar no escuro. Infelizmente, você também vai ficar sem saber se há vida após a morte, pois não dá pra escrever depois de morto. E se desse, acho que Chico Xavier não daria tão certo, já que nenhum espírito precisaria dele para psicografar nada. Estranho eu achar lugar para uma piadinha no meio dessa situação toda...
O papel que eu achei já está acabando, meu isqueiro está ficando sem gás, e meu cigarro já acabou. Vou aproveitar meus últimos segundos de oxigênio fazendo o que eu fiz a vida inteira: Nada. Me arrependo de ter sido relapso em alguns momentos da minha vida, e só depois de adulto correr atrás das coisas, como família, filhos, emprego... Eu sei que você não é um padre para eu estar me confessando, mas saiba que eu não fui uma boa pessoa, e é até bom eu ficar por aqui. Exagero? Não, realismo. Minha família irá sentir minha falta, com certeza, mas só eles. Portanto, você que está lendo isso, deixe-me fazer ao menos uma boa ação para um desconhecido na vida e te aconselhar a não desperdiçar sua vida. Se tem uma família, volte para casa hoje e abrace-os, como se fosse perdê-los amanhã. Faça isso todos os dias. Diga à sua mulher que a ama. Dê bom dia aos seus vizinhos, afinal gentileza gera gentileza, lembre-se disso.
Últimas linhas. Adeus, estranho. Nunca nos vimos e, com certeza, nunca nos veremos. Porém, quero que saiba que foi um prazer te conhecer. Agora volte ao seu trabalho e procure por sobreviventes. Eles precisam de você mais do que eu.
~34º Edição Cartas - Bloínquês
- sinceramente, não gostei de me imaginar sem ti nessa situação.
ResponderExcluircomo sempre, amei suas palavras, amor. <3
hey cunhado! adorei o post ai, tbm to dentro dessa edição, passa lá depois. Falando nisso somos dois viciados, cê vai saber pq ;D
ResponderExcluirAbraço, Bê.
http://lipebandeira.blogspot.com/2011/03/o-meu-adeus.html
Tem selo pra ti lá no meu blog
ResponderExcluirhttp://sara-rsc.blogspot.com/p/selos.html
Com carinho (:
Quando a morte vai chegando deve ser uma coisa bem tensa!
ResponderExcluirVou te seguir
deve ser horrível para qualquer pessoa se deparar com a morte; até por que pouquíssimas vezes em toda nossa existência pensamos como será quando recebermos a inesperada visita dessa senhora.
ResponderExcluirAdorei seu blog.
abraços,
Iago Marcell.
Olá, adorei o título, e o texto também, rs! Uma história triste, mas que temos a esperança de ter um final feliz, já que não temos a certeza de que o Zé ninguém esteja morto, mas que seja, ele contém uma linda lição, isto é, nos mostra o quão a importância de aproveitarmos a vida com as pessoas que amamos ! Gostei também da forma que narrativa foi construída, pois ela nos prende até fim!Belo post! Abraço!
ResponderExcluirFoi um prazer ler sua carta, de verdade! Estava sublimemente bem escrita! Descontei 1 décimo por apenas um erro de concordância quanto ao “endereço” da mãe e da esposa de nosso protagonista, e eu achei um verdadeiro pecado ter que descontar isso, mas né, foi preciso! De resto sua carta esta ótima, algo envolvente que dá vontade de ler até a ultima linha. Parabéns! Tenha um ótimo final de semana!
ResponderExcluir