3.15.2011

Memórias do abismo, parte II: Senhor Terrence

Agora, falemos sobre meu pai. Terrence Walker foi um veterano da Segunda Guerra Mundial. Assim como todo veterano que volta mudado da guerra, ainda mais uma guerra como aquela, ele tinha problemas. Muitos problemas.

Comecemos pelo álcool: Nós morávamos em um apartamento vagabundo pois metade do salário dele, que já era curto, era gasto com bebida. Ele devia tanto pro bar que ele frequentava que, se o dono fosse cobrar tudo, meu pai teria que se prostituir só pra pagar 1% do que ele devia. Quem sofria mais com isso? Esse que vos fala. Meu pai achava que eu era a causa dos problemas dele: A mulher dele enlouqueceu, o dinheiro dele era pouco, ele não podiatransar em casa pois, segundo a mente doentia dele, ele me respeitava, então o que lhe resta a fazer comigo? Bater, para descontar a raiva do mundo. Bater, bater, bater, bater. Aos 4 anos, eu já sabia o que era gesso. Não, não foi ele quem me levou ao hospital, foi a irmã de minha mãe, mas falarei dela mais pra frente. Aliás, sem querer adiantar grande parte da história, acho que ela foi a única coisa boa a acontecer comigo durante minha vida inteira.

O segundo problema era sexo. Convenhamos, gente, sexo faz falta pra quem convivia dia e noite com isso. Era minha mãe, antes de ela ir para o hospício. Depois dela, a vizinha, a filha da vizinha, a mãe da vizinha, a nossa cachorra, a cachorra da vizinha. Por várias vezes, eu o vi nos maiores amassos com a tal vizinha do apartamento ao lado, a dona Victoria. Certa vez...

T: - E então, gostosa, vamos para dentro?
V: - Não, meu marido está pra chegar.
T: - E isso faz alguma diferen... Ei, moleque, pára de me espionar e volta pra dentro!

Um tapa a mais, um dente a menos. Depois disso, eles entraram no apartamento dela. Já sabem pra quê.

As paredes do nosso apartamento deviam ser muito finas, pois eu ouvia cada gemido, cada grito, cada choque da cama contra a parede. Todos os dias. Até que o marido dela pegou os dois certo dia, arranjou briga com meu pai e ela, obviamente, e o casal Collins se mudou do apartamento ao lado. Nunca mais ouvi falar na dona Victoria, espero que ela ainda esteja viva...

E assim foi a vida com meu pai. Se é que posso chamá-lo de pai. Apanhar todos os dias, sofrer humilhações de diversas formas, ter que ser praticamente uma maldita dona-de-casa, entre outras coisas. E assim foi por 9 anos. A mesma rotina, dia após dia. Não sei como sobrevivi, mas eu sobrevivi. Antes eu tivesse morrido, eu teria me livrado de tanta dor...

Enfim, próximo tópico: Meu tio.

2 comentários:

  1. - você tá me deixando tensa, amor.
    eu não estou falando por falar, realmente estou tensa.
    você sabe o quanto me impressiono fácil e como cada linha está refletindo em mim.
    estou gostando, não só por você ser meu namorado, claro. estou gostando porque está totalmente fora de tudo que costumo ler.
    beijos, meu amado. ;****:

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  2. Rafael, estou-me aqui um pouco atrasada. Mas, o tempo está curto, acho que você já deve estar acostumado com essa frase. Mas, não podemos pegar as horas e aumentá-las, infelizmente.
    Hoje me sobrou minutos para passar por aqui, e acompanhar esse seu conto que me fascinou, como prometido.
    O que posso dizer desse capítulo que acabei de ler? Sofrido, amargo, ácido.
    Acho que eu já te disse a forma extraordinária em que o sombrio me atrai, e por isso, talvez, esse seu conto tenha me pegado pelos pulsos e me segurado a ele.
    Enquanto ao meu texto ' O espelho quebrado', realmente trás uma confusão subjetiva. Mas, eu gosto que as palavras se recarreguem de tais subliminares, as pessoas podem [re]inventar a história já criada da forma que desejar.

    Forte abraço, espero a próxima parte e espero tempo para lê-la e comentá-la.

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